quinta-feira, 27 de maio de 2010

em nenhum lugar (2 de Junho - 19h)

Inauguração da exposição de André Silva «em nenhum lugar», na Galeria Arthobler

Sabemos que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Somos observadores racionais capazes de perceber a diferença entre realidade e ficção, realidade e ilusão. Apesar disto, por vezes seduz-nos o prazer de suspendermos voluntariamente a incredulidade como se quiséssemos chegar a um acordo entre o que sabemos que é verdade e o que desejaríamos que fosse real.

A criação da paisagem como conceito artístico é, sem dúvida alguma, responsabilidade da pintura. Ela fez da Natureza um tema e da paisagem um género. Um género que atravessa a história da cultura. A paisagem criou-se e reproduziu-se. Inventou-se e modificou-se desde as oficinas de pintura mais célebres de cada período histórico. A natureza reflectia aspectos dramáticos, mágicos, religiosos, mas raras eram as vezes em que se pintava uma paisagem como realmente era; mais, a grande maioria das paisagens da história da pintura nunca existiram assim. Primeiro pintava-se de memória, depois a partir de uns esboços, finalmente os plen airs instalaram-se no campo para pintar diante do “cenário”. A pintura inventou uma paisagem ideal, falsa, cheia de lugares que nunca existiram, misturando numa superfície elementos da memória e desejo, dos sonhos e das necessidades sociais.

Na presente exposição apresento uma disposição de meios ─ instalação, desenho, pintura ─ onde se entrecruzam, uma combinação de “arte” feita a mão com a presença de suportes que têm um aspecto de acabamento mais industrial como é o caso de algumas peças escultóricas apresentadas. As obras são uma reflexão sobre o decorrer do tempo, uma metáfora sobre a vida e a morte, sobre o crescimento e a degradação.

O trabalho apresentado estabelece uma relação com a História da Arte, não pode dizer-se que se trata de imagens “realistas” mas também seria erróneo aproximar a obra de imagens abstractas. A abstracção é uma tradição que se entende a si mesma, é uma relação de evolução com o conjunto da história da pintura. Está encaminhada até à total autonomia da obra, trata de alcançar o que se supõe, o ponto álgido do meio, depurando ao máximo o seu vocabulário: cor, forma, relação. O ponto de partida deste trabalho é diferente. A pintura não busca a sua total autonomia senão uma fusão com a realidade que só pode dar-se convertendo-a num híbrido, numa amálgama que busca referências dentro e sobretudo fora do meio pintura.

Ao proporem percursos físicos e mentais, espaciais, sensoriais e psicológicos, as obras reconduzem-se a outros lugares, actuando sobre o tempo e a memória, através de um mecanismo de repetição dos motivos que se podem observar numa variação de escalas.

A representação da paisagem, sempre foi uma forma de conhecer o que nos rodeia e medir ou evidenciar os nossos parâmetros científicos, estéticos e morais. Quando se “faz” paisagem também se faz política, já que o olho está guiado pela formação e sensibilidade de cada um e a vontade de onde se quer colocá-lo. Apresentando ou omitindo, critica-se o entorno e o contexto; agudizando o olhar provocam-se leituras; utilizando estratégias ou fórmulas estéticas, distanciam-se ou aproximam-se determinadas problemáticas.

Diria que toda a paisagem está em lugar nenhum. Está mise en scène transforma e mais − transtorna as imagens representadas até as converter em perguntas. Onde se encontram exactamente estas paisagens? Qual é a sua geografia?

André Silva, Abril 2010