sexta-feira, 16 de julho de 2010

A LER DEVAGAR sugere...


O Fim dos Livros, Octave Uzane, trad. Jacinta Gomes, Ed. Palimpsesto - 8.85€

«Baseio-me na constantação inegável de que o homem ocioso rejeita cada vez mais a fadiga e procura avidamente aquilo a que ele chama o conforto, isto é, todas as ocasiões de poupar tanto quanto possível o dispêndio e o funcionamente dos seus orgãos. Não deixarão de concordar comigo que a leitura, tal como a praticamos hoje, provoca rapidamente uma grande lassitude, pois não só exige do nosso cérebro uma atenção constante que consome uma grande parte dos nossos fosfatos cerebrais, como também obriga o nosso corpo a diversas atitudes cansativas. Força-nos, se estivermos a ler um dos vossos grandes jornais no formato do Times, a exibir uma certa habilidade na arte de virar e dobrar as folhas; fatiga os nossos músculos tensores, se as mantivermos completamente abertas; enfim, se é ao livro que nos referimos, a necessidade de cortar as folhas, de as correr à vez uma depois da outra, produz por miúdas fricções sucessivas, um enervamento muito perturbador a longo prazo.», pp. 34-35

(...)

«Creio, portanto, no sucesso de tudo aquilo que lisonjeie e alimente a preguiça e o egoísmo do homem; o elevador pôs fim às escadas dentro de casa; o fonógrafo destruirá provavelmente a tipografia. Os nossos olhos são feitos para ver e reflectir as belezas da natureza e não para serem usados na leitura de textos; há demasido tempo que deles abusamos, e não é preciso ser um douto oftalmologista para conhecer a série de doenças que afligem a nossa visão e nos obrigam a servirmo-nos dos artifícios da ciência óptica.», p. 36-37