quarta-feira, 3 de agosto de 2016

MADAME MONSANTA > Em Defesa da Santa Corporação da Fé Correctora dos Erros Divinos > Terças às 18h30



COMO UM NEONATURALISMO DA SURREALIDADE EM CENA

O texto em cena trata de coisas dos grandes trusts da indústria alimentar, e de outros com estes irmanados: na farmacêutica, na guerra, na construção civil ou nos mercados financeiros. O que é dito parece um delírio. Mas não é. Não trata de teorias da conspiração, mas de factos comprovados e, por vezes, mesmo judicialmente julgados. De certa forma é mesmo uma espécie de neonaturalismo, que está contido na margem da surrealidade, em que todos mergulhamos adormecidos.

Todos nós, sem disso nos apercebermos, com mais ou com menos frequência e intensidade, reproduzimos comportamentos macro-sociais nosso micro-cosmos profissional, social, afectivo. Estamos todos, de facto, envenenados com glifosato dos produtos. Mas também com dioxetrinas da ética, benzodiazepinas no comportamento, poliueretanos ideológicos. Porém, constatando-o, não se trata de apontar caminhos. O teatro, a arte, melhor dito, não se fez para dar respostas. Nem ser instrumento de, seja o que for.

De resto, só uma autoconsciência emancipada poderá fazer emergir um real diferente. Senão, por mais bem-intencionadas que comecem quaisquer transformações (sociais ou mesmo de índole pessoal), cedo se reagrupam vícios do momento anterior e tudo volta a formas de enganos, exploração e miséria. Mudam protagonistas e fórmulas, mas o Mal tudo reabsorve.

Tal como no divã terapêutico da psicanálise é preciso descer aos quintos do inferno para deles nos libertarmos. Ou, ao menos, melhor conviver e controlar os demónios que nos perseguem e com que perseguimos os outros. Aqui, em cena, o mesmo se propõe a cada espectador: que se coloque frente a frente com o seu espelho próprio. Talvez, também, em termos de Humanidade tenhamos ainda que cair abismo abaixo para procurar outro Vale. Mas isso e disso não sabemos nós, e ninguém, como é ou vai ser.

À arte compete a inquietação, mais ou para além da crítica.

Castro Guedes
Junho de 2016