quinta-feira, 26 de julho de 2018
Leitura Encenada > As Quatro Mortes de Marie > 06 OUT > 17H00
AS QUATRO MORTES DE MARIE
SINOPSE
Numa manhã, antes de sair para a escola, Marie faz projetos para o futuro: caminhar até à Terra do Fogo, escrever as aventuras de Mary Simpson, ter quatro meninos e quatro meninas.
Entre as escovadelas de cabelo, a mãe, Simone, recorda-lhe os deveres: não chegar atrasada às aulas, conjugar o mais-que-perfeito do conjuntivo do verbo amar, o rol das compras. As ervilhas, as bolachas de chocolate, as
cerejas, os cigarros.
Antes dos beijinhos de despedida, Simone conta a história de um homem que viu qualquer coisa.
A caminho da escola, Pierrot Desautels aparece como o lobo da floresta.
Enquanto descobrem o sabor das gomas de cereja, Pierrot sonha com um oito rodas. A rolar e a ouvir ópera pelo mundo fora... Marie tem uma ideia luminosa: “eu Marie onze anos e meio... eu nunca morrerei”.
Já na escola, entre o ralhete da mademoiselle Gervais, as lições de História e de Geografia, Marie quer descobrir um continente.
Na cozinha, segue a dança triste de Simone: a música na rádio, a nesga de luz no soalho, um espelho, um fio de água a correr e o semblante das
passoas que partem...
De regresso a casa, a carta que Simone deixou é um pedido: “pensa em mim e no teu pai. Amo-te. Amo-te.”
Marie tem vontade de chorar, mas não chora.
Debaixo da mesa, um murmúrio.
O pai, Théo, regressa. Regressa porque perdeu uma coisa. Regressa para sangrar o destino dele, como um rio que corre, que escorre e se esvai.
Agarrada ao pai, Marie descobre o desgosto.
Marie é agora uma jovem ativista. Combinou fazer uma coisa muito importante com o amigo Louis. Mas Pierre salta do camião dele para fazer
ver a Marie que há ainda outras coisas, também importantes.
Marie hesita. Louis pressiona.
Marie inflama-se e grita palavras de ordem. Grita e arde.
Desta vez, Marie descobre a revolta.
Marie é uma mulher já não tão jovem. Os amigos reencontram-se. Os projetos e as realizações acalentadas outrora, menos. É agora uma profissional do sono.
A melhor amiga, Sylvette, traz com ela outra jovem Marie e, atrás de si, outras velhas feridas.
Pierre-Jean faz, agora, relatos de viagens. Ideais para animar serões e festas. A festa de Marie. Louis atarefa-se a satisfazer a coxa de Sylvette e um molar dorido. Ele ainda se recorda dos filósofos que lera outrora e dos gestos arrebatados e proibidos. Agora, fica-se pelo que é permitido.
Thomas chega porque Marie pediu. Porque Marie ainda sonha com alianças e com o que pode ficar depois deles. Mas Thomas veio para cheirá-la, para tocá-la e é tudo. Tudo o resto ele já tem: a tristeza, o tédio, as obrigações. Lá, de onde veio, também não há nada.
Marie engole a ferida da desilusão.
Um pequeno bote é agora o único território que Marie conhece. Não tem rumo certo, nem idade certa. Mas parte porque já não podia ficar.
Aconteceu assim, enquanto via a água pingar. Ainda haverá perguntas por responder? Marie está ofegante... Ainda haverá dragões para vencer? Há continentes para descobrir? Há idades para alguma coisa? Há coisas perdidas a recuperar? Os amigos gritam. Marie está só e ofegante...
Novembro 2016

